Montreal: Palco do Maior Evento de Tecnologia e IA do Canadá
Startups do Brasil levam inovação e inclusão ao Canadá ao participar do ALL IN 2026, principal evento de IA do Canadá. É um voo de mão dupla no mundo da tecnologia que transforma criatividade em negócio com impacto social.
Por Jandy Sales | 14 de julho de 2026

ALL IN 2026 – O principal acontecimento de inteligência artificial do Canadá espera mais de 6.500 participantes em Montreal, em setembro. Duas startups brasileiras participarão do evento. Foto gentilmente cedida pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá.
Não foi por acaso que o ALL IN nasceu em Montréal. Nas últimas duas décadas, a cidade canadense transformou-se em uma das maiores referências mundiais em inteligência artificial. Instituições como a Université de Montréal, o Mila – Quebec Artificial Intelligence Institute e centros de pesquisa ligados à indústria ajudaram a consolidar uma concentração rara de cientistas, engenheiros e empresas especializadas em aprendizado de máquina.
Hoje, multinacionais como Google, Microsoft, Meta, IBM e Nvidia mantêm laboratórios ou centros de pesquisa na região, atraídas pelo talento acadêmico e pelos investimentos públicos realizados pelo governo da província de Québec.
E uma prova que Montreal nunca experimentou a efervescência da inteligência artificial é o que está por vir em setembro deste ano. A cidade recebe o ALL IN 2026, o maior encontro de IA da América do Norte – e um dos mais relevantes do mundo. São esperadas mais de 6.500 pessoas, entre investidores, empreendedores, pesquisadores e tomadores de decisão de dezenas de países.
O evento não é apenas uma vitrine de algoritmos. É um motor de negócios. Criado para transformar conhecimento em resultados concretos, o ALL IN conecta startups a mercados, universidades a empresas, e governos a inovadores. E, nesta edição, o Brasil marcará presença com um voo próprio, com a participação de startups que trazem para o evento inovação na pesquisa científica e tecnológica.
Parceria Estratégica
A Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), em parceria com o Consulado-Geral do Brasil em Montreal, selecionará duas startups brasileiras para participar da missão. As escolhidas recebem ingresso para o evento – que custa cerca de 4 mil reais – e integram uma agenda exclusiva de visitas técnicas na capital quebequense.
“A ideia é mostrar o que o Brasil tem de melhor, criar conexões reais e abrir portas para a internacionalização”, afirmou Beatriz Calegare, gerente de desenvolvimento de negócios e inteligência de mercado da CCBC. Para ela, o momento é de “olhar o copo meio cheio”. E o copo, no caso, transborda oportunidades.
O Acolhimento da IA

Na foto ao lado, a luva Libero recebeu o Meilleur du CES 2025, concedido pelo programa canadense Planète Techno durante a cobertura da CES (Consumer Electronics Show).
Entre as startups que disputam uma vaga na delegação brasileira, uma chama atenção por um motivo muito humano. A Totum Tech nasceu da dor – e da determinação. Sua fundadora, Maria Júlia Guimarães, é designer de formação, com passagens por arquitetura, artes digitais e efeitos visuais. Ela se mudou para Montreal há 17 anos. Maria Júlia convive com doenças autoimunes e com uma delas, a síndrome de Raynaud, que afeta a circulação sanguínea nas mãos. “Estava deixando minha vida complicada. Eu pensei: preciso entender isso e achar um meio de controlar”, conta.
O resultado é a luva Libero – nome que, em latim, significa liberdade. De acordo com Maria Júlia, o dispositivo usa sensores e inteligência artificial para detectar mudanças no ambiente que antecedem uma crise. Antes que os sintomas apareçam, a luva aquece proativamente, evitando dor, formigamento e dormência. “Com o calor generalizado, consegui voltar a sentir a circulação nos dedos”, disse ela em entrevista por telefone.
Criatividade também é Economia
Embora a inteligência artificial costume ser associada apenas a algoritmos complexos, a reportagem da Revista DISCOVER encontrou uma realidade mais ampla. Hoje, criatividade tornou-se um ativo econômico. Empresas bem-sucedidas já não competem apenas pela tecnologia que desenvolvem. Competem pela capacidade de transformar conhecimento em soluções capazes de melhorar a vida das pessoas.
É justamente essa lógica que orienta a seleção das startups brasileiras convidadas para o ALL IN 2026. A Totum Tech, por exemplo, é uma empresa com DNA brasileiro que decidiu enfrentar um desafio raramente discutido quando o assunto é inteligência artificial: a inclusão de pessoas com deficiências invisíveis.
Enquanto grande parte das soluções tecnológicas procura automatizar tarefas ou aumentar produtividade, essa startup escolheu outro caminho. Utilizar inteligência artificial para devolver autonomia, uma história que começa muito antes de qualquer algoritmo, como conta Maria Júlia Guimarães, fundadora da startup.
Invisível aos Olhos
A tecnologia, aqui em foco, no entanto, não se limita a uma doença rara. A IA embarcada aprende os gatilhos de cada pessoa. Segundo Maria Júlia, “o sistema pode aprender que o usuário tem crise quando a temperatura cai em determinado ambiente. Então a luva aquece onde é preciso”. O objetivo, segundo ela, é “tornar o que é invisível em visível, para que as pessoas aceitem a pessoa com deficiência da maneira que ela merece”.
A Totum Tech já tem uma lista de espera em seu site (totumtech.com), revelou Maria Júlia. A previsão é que o produto chegue ao mercado em cerca de um ano – um ciclo curto para o setor de tecnologia assistiva, pois a luva não exige anos de testes clínicos, apenas registro sanitário. A equipe, formada por quatro pessoas e três parceiras em Montreal, trabalha agora na fase de validação com pacientes, segundo ela.
Maria Júlia Guimarães com a luva Libero, e Celso Sawaia, membro do comitê consultivo da Totum Tech. Foto: Arquivo Pessoal
Ela não escondeu a emoção ao falar do ALL IN: “Já participei da edição passada. O mais interessante são as perguntas que as pessoas fazem. O feedback é valioso. E agora vamos levar a luva – mas o foco é mostrar o potencial da IA para detecção e prevenção.”
De acordo com Maria Júlia, “o objetivo da tecnologia é melhorar a nossa existência e que – segundo a criadora do protótipo Libero, existe um movimento muito grande de uso ético da IA. “Eu vejo a tecnologia como instrumento para vivenciarmos nosso potencial pleno”, afirmou.
Uma Ponte sobre a Inovação
A presença brasileira no ALL IN não acontece por acaso. É resultado de um trabalho de aproximação construído pela Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), em parceria com o Consulado-Geral do Brasil em Montréal. Mais do que selecionar startups para participar do evento, a iniciativa busca criar uma ponte permanente entre dois ecossistemas reconhecidos pela capacidade de inovar.
Em entrevista à Revista DISCOVER, a gerente executiva de Desenvolvimento de Negócios e Inteligência de Mercado da CCBC, Beatriz Calegare, explicou que o objetivo vai muito além da participação em uma feira internacional. “Nossa missão é conectar empresas brasileiras ao ecossistema canadense de inovação, criando oportunidades reais de negócios, investimento e desenvolvimento tecnológico.”
Segundo ela, o Canadá consolidou um ambiente particularmente favorável ao crescimento de empresas inovadoras porque conseguiu reunir universidades, centros de pesquisa, governos, investidores e grandes companhias dentro de um mesmo ecossistema.
Essa integração permite que pesquisas acadêmicas sejam rapidamente transformadas em produtos e serviços disponíveis no mercado.
Ecossistema de Inovação Canadense
O Canadá, aliás, não deixou o sucesso ao acaso. Em 2018, o governo federal lançou os “super clusters” (hoje chamados de global innovation clusters), uma iniciativa que une empresas, universidades, centros de pesquisa e governo em setores estratégicos. Outra história bem-sucedida da tecnologia em Quebec é que Montreal abriga um dos polos de IA mais avançados do mundo, o Mila, fundado por Joshua Bengio, um dos pais da inteligência artificial.
Beatriz Calegare é gerente de desenvolvimento de negócios da CCBC. Ela lidera a ponte entre startups brasileiras e o ecossistema de inovação canadense. Foto gentilmente cedida pela CCBC.
“O Canadá faz essa triangulação muito bem”, observou Beatriz. “Para o Brasil, a grande oportunidade é mostrar que também temos muita tecnologia boa, startups preparadas.” Ela cita setores como agtech, fintech, saúde e educação como os mais promissores para a parceria luso-brasileira-canadense.
Criatividade como Ativo
Se há um fio invisível conectando a luva Libero ao ALL IN e à CCBC, o mesmo se chama economia criativa. Não a economia dos influenciadores, mas a que transforma atenção, conhecimento e diversidade em infraestrutura econômica.
O Brasil é um laboratório mundial de monetização digital. O Canadá constrói vantagem competitiva sobre a diversidade cultural e Québec, com sua política de inovação aberta ao mundo, funciona como uma ponte entre os dois, segundo Beatriz.
O Futuro Começa Agora
“Hoje existe uma abertura enorme do canadense em olhar para o Brasil”, afirmou ela. “Se os Estados Unidos fecham portas, vamos aproveitar para abrir novas. O Canadá é um país historicamente importador, com acordos com o mundo inteiro, mas agora olha para cá como oportunidade.”
Beatriz Calegare acrescentou que as negociações de um acordo comercial entre Mercosul e Canadá – aceleradas nos últimos meses – podem abrir caminho até para a adoção de tecnologias brasileiras como o Pix. “Já tivemos conversas iniciais. O Canadá não tem uma ferramenta semelhante vinda do governo. É um campo fértil.”
O ALL IN transforma Montreal em um ponto de encontro da inovação ao conectar talentos, empresas e pesquisadores que moldam a próxima geração da tecnologia mundial. Foto gentilmente cedida pela CCBC.
A inteligência artificial veio para ficar. Mas, como toda ferramenta, seu uso pode seguir dois caminhos. No ALL IN, o debate sobre regulação, ética e impacto social também terá lugar. “Existe preocupação, sim”, admite Beatriz. “Mas a gente tem muito mais oportunidade do que lado negativo.”
Já Maria Júlia resume o sentimento de quem constrói tecnologia com propósito: “Infelizmente existem pessoas que usam a tecnologia de forma não exemplar. Mas eu vejo um movimento grande, aqui no Canadá, de uso ético da IA, para trabalhar melhor, viver melhor.”
E é com essa missão – a da tecnologia a serviço da vida – que as startups brasileiras desembarcam em Montreal em setembro. Não levam apenas algoritmos. Levam histórias, superação e a certeza de que a criatividade, quando bem direcionada, vira o ativo mais valioso do século XXI.
Além da Totum Tech, participa do ALL IN 2026, a startup Event Flow que, segundo a CCBC, participa do evento com o objetivo de apresentar sua plataforma digital voltada à gestão e otimização de eventos presenciais. O ALL IN 2026 está previsto para acontecer nos dias 16 e 17 de setembro deste ano.
Inovação, Tecnologia e Negócios em Pauta
A atuação da Câmara de Comércio Brasil-Canadá (CCBC), no entanto, vai muito além do setor de tecnologia. A entidade organiza missões empresariais para alguns dos principais eventos internacionais de inovação e negócios, entre eles a SIAL Canada, considerada uma das maiores feiras multissetoriais de alimentos e bebidas da América do Norte.
Na edição mais recente, o evento reuniu mais de mil expositores de mais de 40 países e cerca de 21 mil profissionais da indústria alimentícia, do varejo e dos serviços de alimentação. Em parceria com instituições como o Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), governos estaduais e entidades setoriais, a CCBC transforma essas iniciativas em oportunidades concretas de internacionalização para empresas brasileiras.
Um exemplo é a Cooperlimão, cooperativa de produtores de Urupês (SP), que, segundo a assessoria da CCBC, após participar da missão empresarial organizada para a SIAL, firmou um acordo comercial para exportação de limão tahiti ao mercado canadense e, desde então, ampliou sua presença no país.
Casos como o da Cooperlimão e da Totum Tech com o ALL IN demonstram que a cooperação entre Brasil e Canadá já produz resultados concretos e reforçam uma tendência cada vez mais evidente: inovação, inteligência artificial e comércio internacional caminham juntos na construção de uma economia baseada em conhecimento, sustentabilidade e competitividade global.
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