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Cooperativismo e Economia Criativa nos Territórios

Comunidades transformam desenvolvimento em futuro e redesenham o Brasil       

Por Caio Quinderé | 14 de julho de  2026

Em um país que busca equilibrar desenvolvimento econômico, inclusão social e sustentabilidade, as cooperativas vêm se consolidando como protagonistas de uma transformação silenciosa, porém profunda. Ao reunir princípios de colaboração, inovação e responsabilidade socioambiental, elas assumem um papel estratégico na construção de uma economia circular e criativa — um modelo capaz de reduzir desperdícios, valorizar territórios, gerar renda e fortalecer comunidades em diferentes regiões do Brasil.

Mais do que estruturas produtivas, as cooperativas representam uma nova lógica de desenvolvimento, na qual crescimento econômico, impacto social, preservação ambiental e valorização cultural caminham juntos. No Brasil, esse movimento ganha força em setores como agricultura familiar, reciclagem, artesanato, moda sustentável, bioeconomia, turismo comunitário e produção cultural. Ao incentivar cadeias produtivas locais, reaproveitar materiais e transformar conhecimento em valor econômico, essas iniciativas demonstram que é possível produzir mais e melhor, com menor impacto ambiental e maior inclusão social.

Desenvolvimento Coletivo

Luiz Gastão — Deputado federal defende cooperativismo como motor de desenvolvimento regional sustentável.

Para compreender como esse modelo vem impulsionando transformações econômicas e sociais no país, a Revista DISCOVER conversou com Luiz Gastão, deputado federal e ex-presidente do Sistema Fecomércio Ceará (1998–2026), cuja trajetória é ligada ao associativismo, ao sindicalismo e à defesa do terceiro setor. Na entrevista, ele analisa os desafios e as oportunidades do cooperativismo brasileiro, além do potencial da economia circular e criativa como motores de desenvolvimento sustentável.

Revista DISCOVER – Como o senhor avalia o papel do cooperativismo na geração de emprego, renda e desenvolvimento regional, especialmente no Nordeste?

Luiz Gastão – O cooperativismo é uma das formas mais eficientes de organizar pequenos produtores, ampliar renda e fortalecer economias locais, especialmente no Nordeste. Ele melhora a capacidade de negociação, cria escala e amplia o acesso a mercados que, de forma isolada, seriam inviáveis. Quando há apoio técnico, qualificação e estrutura logística, as cooperativas passam a ter impacto direto no desenvolvimento regional, gerando emprego, mantendo famílias no campo e fortalecendo cadeias produtivas no interior.

RD – Quais iniciativas legislativas podem fortalecer as cooperativas brasileiras como agentes estratégicos da economia circular, criativa e sustentável?

LG – Há espaço para avançar em marcos legais que incentivem a produção de baixo impacto ambiental, ampliem a participação das cooperativas em cadeias de reciclagem e logística reversa, facilitem o acesso à economia criativa e modernizem o ato cooperativo, abrindo espaço para inovação e digitalização. Na prática, isso já funciona. Um exemplo é o Projeto de Aquisição de Gêneros da Agricultura Familiar do Sistema Fecomércio Ceará, reconhecido com o Selo de Projeto Sustentável pelo Sesc Brasil. O modelo, baseado em credenciamento público, permite que cooperativas forneçam alimentos ao Sesc e ao Senac, fortalecendo a economia local com compras contínuas ao longo do ano. Com previsibilidade de demanda e garantia de mercado, as cooperativas conseguem planejar, investir e melhorar sua produção. Isso mostra que, com incentivos adequados, o cooperativismo ganha escala, incorpora práticas sustentáveis e amplia sua capacidade produtiva — um resultado que pode ser replicado em todo o país.

Crédito e Inovação

RD – De que forma o Congresso Nacional pode contribuir para ampliar o acesso das cooperativas a crédito, inovação e novos mercados?

LG – O Congresso pode atuar em três frentes principais: crédito, com ampliação de linhas específicas nos bancos públicos e fundos constitucionais, com condições adequadas à realidade das cooperativas; inovação, com apoio à digitalização, certificação, rastreabilidade e adoção de tecnologias que aumentem a competitividade; e mercado, com fortalecimento das políticas de compras públicas, parcerias com o setor privado e participação em cadeias produtivas. Essas medidas permitem que as cooperativas deixem de atuar apenas na base da produção e passem a ocupar posições mais estratégicas.

RD – Na sua visão, quais são os principais desafios regulatórios e tributários que ainda precisam ser superados para impulsionar o cooperativismo no Brasil?

LG – Os desafios ainda são claros: a complexidade tributária, que varia entre estados e setores; a insegurança jurídica sobre o ato cooperativo; e a dificuldade de atender exigências sanitárias e regulatórias sem o devido apoio técnico. Muitas cooperativas têm capacidade de produzir mais, mas ficam limitadas por barreiras burocráticas. Simplificar esse ambiente, com mais segurança jurídica, é essencial para dar escala e competitividade ao cooperativismo.

RD – Considerando sua atuação em defesa do setor, como o senhor enxerga o futuro das cooperativas na construção de um modelo econômico mais inclusivo, resiliente e alinhado às demandas do século XXI?

LG – O cooperativismo tem futuro porque dá escala a quem produz e fortalece a economia local. Organiza a produção, gera renda e amplia o acesso ao mercado. É um modelo que cria mais oportunidades e tem impacto direto nas comunidades. Com políticas públicas bem estruturadas, qualificação e incentivo à inovação, as cooperativas podem ampliar seu papel no desenvolvimento do país, com mais equilíbrio econômico e mais gente produzindo, gerando renda e participando da economia.

Modelo Sustentável

Em um mundo pressionado pelas mudanças climáticas, pela desigualdade social e pela necessidade de novos modelos econômicos, o Brasil começa a consolidar caminhos que unem sustentabilidade, inclusão produtiva e inovação. Nesse cenário, a economia circular, a economia criativa e o cooperativismo surgem como forças complementares capazes de transformar territórios, fortalecer comunidades e gerar desenvolvimento de forma mais equilibrada.

No Nordeste, essa transformação ganha contornos ainda mais potentes. A região, historicamente marcada por desafios socioeconômicos, passa a ser reconhecida também como um laboratório vivo de soluções sustentáveis, impulsionado pela riqueza cultural, pela biodiversidade e pela força das iniciativas comunitárias.

Muito além do discurso ambiental, a economia circular propõe um redesenho das cadeias produtivas com foco na redução de resíduos, no reaproveitamento de materiais e no uso mais eficiente dos recursos naturais. Já a economia criativa transforma cultura, identidade, saberes populares e inovação em ativos econômicos. Quando associadas ao cooperativismo, essas agendas criam um modelo de desenvolvimento baseado na colaboração, na valorização territorial e na geração de impacto social.

Força Nordestina

No Ceará, cooperativas ligadas à agricultura familiar, reciclagem, artesanato e produção comunitária vêm demonstrando como esse modelo pode gerar resultados concretos. Ao organizar pequenos produtores em redes colaborativas, essas iniciativas ampliam mercados, fortalecem economias locais e mantêm a riqueza circulando dentro das próprias comunidades.

O presidente do Sistema OCB/Ceará, João Nicédio Alves Nogueira, destacou a força coletiva das cooperativas nordestinas.

Para João Nicédio Alves Nogueira, presidente do Sistema OCB/Ceará (Organização das Cooperativas do Brasil), o cooperativismo já nasce alinhado aos princípios da economia circular por ter, em sua essência, a cooperação e o fortalecimento coletivo. “As práticas da economia circular fazem parte da essência do cooperativismo. O modelo cooperativista trabalha fortemente o compartilhamento, a cooperação e o fortalecimento das pessoas”, afirmou.

Segundo ele, o principal papel das cooperativas é justamente organizar pequenos produtores para ampliar competitividade e acesso ao mercado. “Muitas vezes, os grupos ficam limitados à própria região. O cooperativismo permite que essas pessoas se organizem, reduzam custos, acessem matéria-prima em melhores condições e alcancem mercados mais distantes”, explicou.

Apesar do avanço do setor, Nicédio afirmou que o Brasil ainda enfrenta um desafio cultural importante: o individualismo. “Ainda temos dificuldade de trabalhar juntos e construir soluções coletivas. Mas é exatamente aí que está a grande oportunidade. Quando os pequenos se organizam, conseguem fortalecer suas comunidades, aumentar a renda e promover desenvolvimento social”, disse.

Francisco Claudeirton de Paula — Presidente da COOPERVEJ fortalece pequenos produtores no Vale do Jaguaribe.

Essa realidade pode ser observada no interior do Ceará. No Vale do Jaguaribe, a atuação da COOPERVEJ (Associação das Cooperativas do Vale do Jaguaribe) tem fortalecido cadeias produtivas locais ao conectar pequenos agricultores e produtores rurais em uma rede de cooperação.

Para Francisco Claudeirton de Paula, atual presidente da associação, as cooperativas desempenham um papel estratégico na manutenção da riqueza dentro dos próprios territórios. “As cooperativas do interior do Ceará têm contribuído para fortalecer a economia local, gerar oportunidades e manter as riquezas circulando nas próprias comunidades. Esse trabalho tem sido fundamental para conectar pequenos agricultores e fortalecer os territórios”, afirmou.

Transição Ecológica

O fortalecimento dessas iniciativas também impulsionou o surgimento de espaços de articulação regional, como o Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC), criado em Salvador, em 2023. O evento nasceu da proposta de construir uma agenda de transição ecológica pensada a partir das realidades nordestinas.

Liu Berman — Especialista em economia circular articula soluções sustentáveis para o Nordeste brasileiro.

Idealizado por Liu Berman, especialista em territórios criativos e sustentáveis e diretora executiva da LB Cultura Circular, o fórum reúne cooperativas, empreendedores, pesquisadores, governos, instituições financeiras e organizações sociais em torno de soluções circulares e regenerativas.

“O Nordeste precisava deixar de ser visto apenas como território de problema e passar a ser reconhecido como território de soluções. Já existem inúmeras práticas circulares acontecendo nos territórios, muitas delas lideradas por catadores, artesãos, agricultores e empreendedores comunitários”, afirmou Liu.

Em sua terceira edição, realizada em Fortaleza, em março de 2026, o FNEC reuniu cerca de três mil participantes em equipamentos culturais locais, como o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Teatro São José e o Centro Cultural Belchior.

A proposta do evento é justamente aproximar diferentes atores para construir soluções conjuntas. Nos debates, representantes de ministérios, Banco do Nordeste, FINEP, universidades e organismos internacionais compartilham espaço com cooperativas de catadores, coletivos de moda circular, comunidades tradicionais e empreendedores criativos.

O Fórum Nordeste de Economia Circular reuniu participantes em equipamentos culturais como o Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, o Teatro São José e o Centro Cultural Belchior. Foto Geral FNCE  

Além da troca de experiências, o fórum já começa a gerar impactos concretos, com programas de mentoria para negócios circulares, acordos de cooperação institucional e projetos de expansão para outras regiões do país, incluindo a criação do primeiro Fórum Norte de Economia Circular, previsto para acontecer na Amazônia em 2027.

Criatividade Produtiva

Para especialistas, a integração entre economia circular e economia criativa representa uma das principais tendências do desenvolvimento sustentável no Brasil. Luciana Guilherme, doutora em Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (PPED/UFRJ), professora do Programa de Pós-graduação em Economia Criativa, Estratégia e Inovação (PPGECEI) e pesquisadora vinculada ao Laboratório de Economia Criativa, Desenvolvimento e Território (LEC) da ESPM Rio, avaliou que a criatividade se tornou um recurso estratégico para geração de valor econômico, social e cultural.

“A economia criativa tem na criatividade seu principal insumo, um recurso renovável capaz de gerar inovação, inclusão produtiva e geração de renda”, afirmou Luciana Guilherme.

Segundo ela, o Nordeste ocupa posição estratégica nesse cenário graças à sua diversidade cultural, aos saberes tradicionais e ao potencial de seus territórios criativos. Moda sustentável, design com reaproveitamento de resíduos, gastronomia baseada na biodiversidade local, artesanato e patrimônio imaterial já movimentam cadeias econômicas importantes na região.

Dados da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) mostram que os setores culturais e criativos responderam por 3,59% do PIB brasileiro em 2023, reforçando o peso crescente da economia criativa na geração de emprego e renda.

A pesquisadora Luciana Guilherme analisa criatividade como ativo estratégico para desenvolvimento sustentável.

A pesquisadora destaca que o avanço desse ecossistema depende de políticas públicas integradas, qualificação profissional, acesso a financiamento e fortalecimento de redes colaborativas.

“A constituição de ecossistemas criativos depende da articulação entre atores públicos e privados em torno de estratégias territoriais que reconheçam vocações culturais locais. Isso é fundamental para consolidar economias mais inclusivas e sustentáveis”, disse.

Entre tradição e inovação, criatividade e sustentabilidade, o Brasil começa a desenhar uma nova lógica de desenvolvimento — um modelo em que impacto social, preservação ambiental e fortalecimento dos territórios deixam de ser temas paralelos para ocupar o centro da economia do futuro.

 

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Caio Quinderé

Caio é Dramaturgo, escritor e redator. Com mais de 20 anos de experiência em Comunicação, Educação e Artes. Caio já publicou peças de teatro, filmes para cinema e TV e publicou livros. Expertise na gestão de projetos culturais e sociais.

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