Brazil

Brazil

Cidades que Respiram o Futuro

O Brasil Lidera Uma Revolução Urbana Baseada na Natureza

Por Caio Quinderé | 10 de março de 2026

Após a COP30, o Brasil corre para transformar acordos em ação contra a crise climática que já é realidade. A resposta está nas Soluções Baseadas na Natureza (SbN). Campinas implanta microflorestas, enquanto no Ceará, Sobral e Fortaleza revisam seus planos diretores com apoio técnico para adaptação. A WRI Brasil reforça que a coalizão entre governos é vital, pois o sucesso da luta climática depende diretamente das ações implementadas em nossas cidades. A DISCOVER mostra como essa revolução urbana está em curso.

A revolução verde no Brasil coloca em pauta a inclusão de políticas, investimentos e inovações para transformar as grandes cidades em lugares mais resilientes e habitáveis. Foto: Eduarda Santos

A COP30 terminou em Belém deixando um recado ao mundo: as cidades precisam reinventar a forma como crescem, respiram e lidam com a emergência climática. No Brasil, essa urgência se impõe a cada novo evento extremo. Entre 2020 e 2023, o país registrou, em média, mais de quatro mil desastres climáticos por ano.

Neste momento, enquanto esta reportagem é escrita, tornados com ventos de até 200 km/h atingem municípios do Sul, deixando mortos, feridos e centenas de famílias desabrigadas. O cenário é grave — e permanente.

Mas é aqui mesmo, no território brasileiro, que surgem algumas das respostas mais promissoras para  o futuro urbano: Soluções baseadas na Natureza (SbN).

Soluções Que Devolvem a Natureza ao Centro da Cidade

As Soluções baseadas na Natureza (SbN) — conceito consolidado pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) — têm a sua tradução nas ações que restauram ecossistemas e, ao mesmo tempo, protegem a população. Na prática, as ações das SBN podem ser a criação de parques lineares que reduzem enchentes, corredores verdes para baixar a temperatura ou jardins de chuva que controlam o escoamento da água.

É trocar o concreto por jardins e vegetação, para que a água infiltre melhor e a cidade alague menos. É ter hortas e pomares para ter alimento e trazer de volta os pássaros e polinizadores. Todas essas soluções geram múltiplos benefícios, porque é isso que ecossistemas saudáveis fazem, e eles são tão importantes na cidade quanto no campo“, explica Lara Caccia, Coordenadora de Adaptação Urbana World Resources Institute Brasil (WRI), organização que apoia municípios na formulação de estratégias  climáticas baseadas em dados e evidências científicas.

A força do conceito do WRI Brasil vai além da ecologia. Ele combina sustentabilidade, inclusão social e inovação urbana — e tem sido incorporado por um número crescente de cidades brasileiras.

Ações como Soluções baseasdads na Natureza (SbN) têm que ser implementadas e entendidas como políticas públicas urbanas e infraestruturas de adaptação climática”, segundo Lara Caccia, coordenadora da WRI Brasil. 

 

 

 

 

Campinas: o Laboratório Urbano da Nova Adaptação Climática 

A cidade paulista de Campinas se tornou referência nacional ao revisar, ao mesmo tempo, três planos fundamentais: o Plano Municipal do Verde, o Plano de Recursos Hídricos e o Plano de Educação Ambiental. A diretriz central tem sido clara: adotar Soluções baseadas na Natureza (SbN), ou seja, integrar clima, água e biodiversidade em uma mesma estratégia urbana. “Percebemos que não havia mais sentido em tratar o clima, água e biodiversidade de forma separada. A mudança climática é transversal e exige integração – entre secretarias, territórios e pessoas”, afirma Braz Adegas Júnior, secretário do Meio Ambiente e do Clima de Campinas.

A mudança foi possível graças à metodologia desenvolvida pelo WRI Brasil e pela iniciativa Cities4Forests, entre 2019 e 2021. O estudo mapeou vulnerabilidades socioeconômicas, riscos climáticos e capacidade adaptativa. O resultado: as ações passaram a priorizar bairros mais frágeis, garantindo justiça climática e eficiência no uso de recursos públicos.

“Planos são importantes, mas não basta planejar. As SbN têm que ser implementadas e entendidas como políticas públicas urbanas e infraestruturas de adaptação climática”, reforça a coordenadora de Adaptação Urbana do WRI Brasil, Lara Caccia.

A Onda Verde se Espalha: Recife, Fortaleza e Outras Cidades Entram no Mapa

A experiência de Campinas inspirou outras administrações. Cidades como Recife (PE), Fortaleza (CE), São Paulo (SP), Maranguape e Sobral (CE), Campo Grande (MS), e Niterói (RJ) avançam em projetos que unem drenagem natural, arborização, parques lineares e infraestrutura verde, municípios que receberam apoio do Acelerador de SbN. O WRI contemplou 10 cidades e as cearenses de Maranguape e Sobral foram contempladas com recursos do Novo Plano de Aceleração de Crescimento (PAC), do governo federal”, disse Lara Caccia.

Recife e o Enfrentamento Direto às Enchentes

Em Recife, uma das cidades mais vulneráveis do país em questões socioambientais, obras estruturais de drenagem e intervenções baseadas na natureza começam a transformar áreas críticas da capital pernambucana. A macrodrenagem da Bacia do Tejipió, previstas para começarem no primeiro trimestre de 2026, as obras de urbanização integradas em comunidades e a construção do Parque Alagável do Campo do Sena são exemplos de infraestrutura verde que funciona tanto como área de lazer quanto como reservatório natural de água. “O parque terá uma função dupla: atuar como área de lazer durante os períodos secos e como bacia de retenção durante as chuvas, contribuindo para a mitigação de enchentes”, conta a assessora de comunicação da secretaria municipal do Meio Ambiente, Tatyane Serejo.

Atualmente, o acompanhamento de áreas verdes na capital pernambucana utiliza imagens de satélite fornecidas de forma aberta pela Agência Espacial dos Estados Unidos (NASA). O sistema emite fotografias com intervalos de 15 dias e resolução máxima de dez metros.

A partir da adesão ao programa Brasil Mais, o acesso a materiais dessa natureza passará a ser disponibilizado pela PF diariamente, com resolução de até cinco metros. Para Tayane, essa iniciativa prevê alertas automáticos para crimes ambientais, como desmatamento, garimpo, incêndios e plantio de culturas ilícitas.

“Nesse cenário, alterações sutis provocadas pela ação humana na vegetação poderão ser identificadas com a tecnologia, levando o Recife a adotar uma política de tolerância zero com crimes ambientais”, disse Tatyane Serejo, afirmando ainda que as imagens de satélite da NASA ajudam a adotar política de tolerância zero para crimes ambientais.

Fortaleza e o Novo Plano Diretor Participativo

Fortaleza incluiu metas robustas de SbN em seu novo Plano Diretor. A capital cearense ampliou em 38% sua Macrozona de Ambiente Natural e prevê cinco novos parques municipais, além de corredores ecológicos e instrumentos como o IPTU Verde.

Para Artur Bruno, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento (IPPLAN), “o enfrentamento climático só funciona com participação social, planejamento integrado e políticas que resistam ao tempo”.

Artur Bruno, do IPPLAN, explicou que o novo Plano Diretor de Fortaleza foi construído com a população. A ideia é aumentar as áreas verdes, criar uma Zona para Comunidades Tradicionais e adotar políticas contra a crise climática.

Fortaleza está implementando um novo Plano Diretor Participativo e Sustentável (PDPS), que, segundo Artur Bruno, traz “a marca da participação e da sustentabilidade, no nome e na prática”. Ele enfatiza que a força do plano veio de um processo aberto: “Este não é um plano gestado num gabinete. É um plano que ouviu todas as instâncias”.

Um dos avanços concretos é a expansão das áreas verdes. “Um dos principais avanços do novo Plano Diretor de Fortaleza é o aumento das áreas verdes protegidas”, afirma Bruno, detalhando que a proposta apresenta “um acréscimo de 38% na Macrozona do Ambiente Natural” e um incremento de “18% de Zona de Preservação Ambiental (ZPA)”.

Para enfrentar os impactos climáticos, como as “ilhas de calor, das inundações e da elevação do nível do mar”, o plano estabelece políticas setoriais e ações estratégicas. Outra inovação destacada pelo presidente do IPPLAN é a criação da Zona Especial de Comunidades Tradicionais (Zect), que visa “reconhecer e garantir a existência das comunidades e povos tradicionais, buscando preservar suas tradições”.

Integrar a rede de cidades C40, segundo Artur Bruno, “é um privilégio, mas também uma grande responsabilidade”. A participação possibilita “o acesso a novas parcerias, oportunidades de financiamento e valiosas trocas de experiências” para tornar Fortaleza mais resiliente.

Promover a resiliência urbana frente à emergência climática é uma das metas da Zona de Preservação Ambiental adotado pelo Plano Diretor Participativo de Fortaleza, segundo Artur Bruno, presidente do Instituto de Pesquisa e Planejamento. 

 

 A Natureza como Tecnologia do Século XXI 

Em todas essas iniciativas há um ponto comum: a percepção de que a natureza não é inimiga do desenvolvimento urbano – é condição para que ele continue existindo.

Quando um parque vira ferramenta contra enchentes; quando árvores reduzem ilhas de calor quando árvores reduzem ilhas de calor; quando corredores ecológicos conectam bairros e restauram biodiversidade, a cidade volta a pertencer às pessoas.

 O Legado Brasileiro Pós-COP30 

Cacique Raoni concede entrevista dentro da embarcação “Caravana da Resposta”, durante barqueta da Cúpula dos Povos, durante a COP 30. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil.

O encerramento da COP30 em Belém não é o fim, mas o início de uma corrida contra o tempo. O Brasil, onde mais de 85% da população vive em cidades, agora precisa transformar acordos em ações concretas contra a crise climática. O maior evento sobre o clima já realizado na Amazônia reforçou o protagonismo do Brasil na agenda climática. Mas o legado não está apenas nos discursos de Belém — o mesmo já se materializa no cotidiano de cidades que reinventam seu espaço urbano com inteligência, ciência e participação social. O maior país latinoamericano mostra ao mundo que a solução para enfrentar a emergência climática pode estar onde sempre esteve: na própria natureza.

—————

Clique  aqui  e assine nossa Newsletter.

A mais recente edição da revista DISCOVER está disponível em nosso site

Caio Quinderé

Caio é Dramaturgo, escritor e redator. Com mais de 20 anos de experiência em Comunicação, Educação e Artes. Caio já publicou peças de teatro, filmes para cinema e TV e publicou livros. Expertise na gestão de projetos culturais e sociais.

Veja também