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BRASIL ELEIÇÕES 2026: O PODER DO SEU VOTO NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL

Em uma disputa polarizada, quem não vota também escolhe.

Por Paula Filizola | 9 de outubro de 2026

Desinformação é o maior risco da reta final 

Com diferença de menos de dois pontos percentuais no primeiro turno, candidatos entram na reta final da disputa em meio a mudanças no Congresso, alianças em formação e atenção internacional.

Após meses de incerteza política, diante de um cenário cada vez mais polarizado entre direita e esquerda, o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disputarão o segundo turno da eleição presidencial no próximo dia 25 de outubro. No primeiro turno, o candidato do PL obteve 47,03% dos votos (56,1 milhões) nas urnas, contra 45,16% (53,8 milhões) do petista. A diferença de apenas dois pontos percentuais marca a eleição mais apertada desde 1989. O nível de abstenção também bateu recorde: 21,08% dos eleitores não compareceram às urnas.

Flávio venceu em 14 estados e no Distrito Federal e Lula, em 13. No Nordeste, Lula levou 9 estados, com mais de 70% dos votos no Piauí. Já Flávio levou todo o Sul, o Sudeste e o Centro-Oeste. Enquanto isso, o Norte teve quatro estados com o senador e três com o atual presidente.

Em 2022, Bolsonaro ganhou em 12 estados + o DF. A principal diferença é que o filho mais velho do ex-presidente venceu em MG — estado considerado decisivo para ser vitorioso nas eleições presidenciais.

Portanto, para o segundo turno, Flávio parte na frente. Tem mais de três milhões de votos de vantagem e chega ao segundo turno como favorito em parte das projeções políticas.

IMPRENSA INTERNACIONAL

A eleição no Brasil também foi destaque na imprensa internacional, que noticiou como inesperado o resultado do primeiro turno das eleições brasileiras, com Flávio Bolsonaro à frente de Lula e a disputa encaminhada para o segundo turno. Veículos dos Estados Unidos, Europa e América Latina deram destaque ao desempenho do candidato do PL e ao fortalecimento da direita no país.

A cobertura também abordou possíveis impactos regionais e internacionais do resultado, incluindo a relação do Brasil com os Estados Unidos e a repercussão do avanço de forças políticas de direita na América Latina.

Enquanto isso, os mercados reagiram positivamente: o Ibovespa saltou 8%, superando pela primeira vez os 209 mil pontos, e o dólar caiu de R$ 5,21 para R$ 5,00, na maior queda diária desde junho de 2018.

Analistas associaram o movimento à expectativa de uma possível mudança na política econômica, com maior foco em ajuste fiscal e equilíbrio das contas públicas. Apesar de a equipe de Flávio Bolsonaro ainda não ter apresentado um plano fiscal, a força do PL no Congresso é apontada como um fator que poderia facilitar a aprovação de reformas em um eventual governo.

Votação no Exterior

O cenário mundial, no entanto, foi mais favorável a Lula. Dos cerca de 916,5 mil brasileiros aptos a votar no exterior, apenas 341,8 mil compareceram às urnas no primeiro turno. Entre os votos válidos, Lula ficou à frente, com 47,57%, contra 43,49% de Flávio Bolsonaro. Lula foi o candidato mais votado em 64 países, enquanto Flávio venceu em 37.

No Canadá, Lula venceu com 57,75% dos votos válidos, ou 12.508 votos, enquanto Flávio obteve 32,52%, equivalente a 7.043 votos. Em Portugal, segundo maior colégio eleitoral brasileiro fora do país, Lula alcançou 52,45%, com 26.401 votos, contra 38,57% de Flávio, que recebeu 19.412.

Mais de 62% dos eleitores brasileiros cadastrados no exterior não compareceram ao primeiro turno.  Em 2026, cerca de 918,9 mil brasileiros estavam aptos a votar fora do país, distribuídos por 134 países e 186 cidades. Do total de aptos, 574.345 não votaram.

O voto dos brasileiros que têm domicílio eleitoral no exterior é obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos. A principal diferença em relação a quem vota no Brasil é que, fora do país, o eleitor vota apenas para a chapa de presidente e vice-presidente da República.

REGRAS PARA O SEGUNDO TURNO

Quem não votou no primeiro turno pode votar normalmente no segundo turno, desde que o título de eleitor esteja regular. O TSE considera cada turno uma eleição independente. Para quem está no exterior, a justificativa de ausência, caso seja necessário, deve ser feita pelo e-Título ou pelo sistema de Autoatendimento Eleitoral; também é possível justificá-la após o retorno ao Brasil, dentro do prazo previsto pela Justiça Eleitoral.

O ponto importante é que a ausência no primeiro turno precisa ser justificada separadamente. Para as Eleições 2026, o prazo para justificar a ausência do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, vai até 3 de dezembro de 2026.

Tranquilidade

O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, afirmou, em coletiva à imprensa, que o 1º turno das Eleições 2026 transcorreu com tranquilidade e normalidade e que a Justiça Eleitoral já trabalha para garantir as mesmas condições no segundo turno. Segundo o TSE, missões de observação eleitoral do Parlasul, OEA, Uniore e Uerj não identificaram ocorrências graves que comprometessem o processo ou indicassem interferência estrangeira.

O Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade) registrou queda de aproximadamente 86% nas denúncias relacionadas à integridade do processo e à possível supressão do voto: foram 2.604 registros em 2026, contra 18.487 no período equivalente de 2022. O TSE, porém, ressaltou que a redução não elimina a necessidade de atenção à desinformação.

Próximos passos

Agora, os dois candidatos à Presidência terão duas semanas para tentar conquistar os votos dos eleitores que votaram no primeiro turno em alguma opção de terceira via e ampliar suas alianças. Dos candidatos no primeiro turno, Augusto Cury teve 2,89% dos votos; Renan Santos, 2,24%; e Ronaldo Caiado, 2,18%.

Pesquisas realizadas antes do primeiro turno indicam que Flávio pode ficar com 60% dos votos de Zema, 54% dos de Caiado e 48% dos de Renan Santos. O restante deve se dividir entre Lula e votos nulos ou brancos. No entanto, o que parece é que a direita pode partir com uma vantagem estrutural nessa transferência, mas isso não significa necessariamente que haja uma transferência direta de votos por conta de maior convergência ideológica política.

O PT, por exemplo, já sinalizou disposição para conversar com todos os adversários, inclusive nomes posicionados à direita. Já o entorno de Flávio também pretende procurar os demais concorrentes. Vale lembrar que no início de setembro, Augusto Cury afirmou que não daria apoio a Lula em um eventual segundo turno. No entanto, ele admitiu que pode apoiar Flávio caso o senador esclareça o caso do financiamento do banqueiro Daniel Vorcaro ao filme Dark Horse e se comprometa com o plano de governo do Avante.

Para o PT, uma aliança com Cury é vista como a única possível. Já para Flávio, a neutralidade de Cury já seria considerada um avanço. O ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema sinalizou, em recente debate, que poderia apoiar Flávio num segundo turno contra Lula. A expectativa é que Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás, faça o mesmo.

A estratégia desenhada pelo PL para o segundo turno prevê uma ofensiva no Nordeste com o objetivo de ampliar a presença de Flávio e diminuir a diferença para Lula. O candidato do PL ainda conta com um argumento forte da “governabilidade”, já que seu partido saiu como o grande vencedor das eleições legislativas.

VOTO COM CONSCIÊNCIA: O QUE ESTÁ EM JOGO 

Para votar com consciência no segundo turno, o eleitor precisa olhar para além das redes sociais e das declarações mais inflamadas. É preciso avaliar propostas, histórico, alianças, capacidade de governar e, principalmente, o compromisso de cada candidato com as instituições democráticas.

O plano de governo de Lula para um possível quarto mandato tem 84 páginas e prevê a ampliação de políticas sociais e direitos trabalhistas, investimentos públicos e industriais, combinados com compromisso de controle dos gastos e equilíbrio fiscal.

Entre as principais propostas estão o fim da escala 6×1 e jornada de 40 horas, regulamentação do trabalho por aplicativos, valorização do salário mínimo, ampliação de programas sociais e do Minha Casa, Minha Vida, além da manutenção do atual arcabouço fiscal. Na segurança, propõe a criação de um Ministério da Segurança Pública e até R$ 10 bilhões em investimentos. O plano também prevê investimentos em IA, infraestrutura e setores estratégicos, além da meta de desmatamento líquido zero até 2030 e expansão de energias renováveis e biocombustíveis.

Já o plano de governo de Flávio Bolsonaro, com 76 páginas, prioriza segurança pública, redução do tamanho do Estado, corte de impostos, empreendedorismo e equilíbrio fiscal.

Entre as propostas estão a redução de ao menos dez ministérios, reforma administrativa, novas regras para controle de gastos e da dívida pública, retomada de privatizações e mudanças na tributação. Na segurança, prevê ampliar investimentos federais, combater organizações criminosas e construir presídios. O plano também propõe manter programas sociais com mecanismos de controle de fraudes, ampliar ensino técnico e escolas cívico-militares, fortalecer a telessaúde e reajustar a tabela do SUS. Na área ambiental, estabelece a meta de zerar o desmatamento ilegal até 2029 e prevê o fortalecimento do mercado de carbono, enquanto a política econômica estabelece como objetivo um crescimento anual de 4%.

LIBERDADE DE IMPRENSA

Uma das maiores preocupações levantadas nesta eleição é a manutenção da liberdade e do respeito às instituições democráticas, especialmente no que se refere à liberdade de imprensa. Sabe-se que democracia não é apenas o direito de eleger quem pensamos ser melhor. É também a garantia de que, depois da eleição, continuaremos tendo o direito de discordar.

E, para isso, uma imprensa livre não é um detalhe. É uma das condições básicas para que o cidadão continue sabendo o que acontece quando o poder muda de mãos.

ALERTA

A instituição Repórteres Sem Fronteiras (RSF) publicou um balanço dos quatro anos de governo Lula e segundo eles, o Brasil passou da 110ª posição entre 180 países no Ranking Mundial da Liberdade de Imprensa da RSF em 2022, no fim da presidência de Jair Bolsonaro, para a 52ª posição em 2026.

Enquanto isso, preocupado em se afastar da imagem negativa do pai neste campo, Flávio Bolsonaro afirmou que, caso seja eleito presidente, pretende garantir a liberdade de imprensa e assegurar o direito de jornalistas de criticá-lo. Durante o mandato do então presidente Jair Bolsonaro, foram registrados ataques recorrentes à imprensa.

Em 2023, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve, por unanimidade, a condenação do ex-presidente ao pagamento de R$ 50 mil por dano moral coletivo a jornalistas, em ação movida pelo Sindicato dos Jornalistas de São Paulo.

Segundo levantamento da Abraji, foram registrados 557 ataques a jornalistas, meios de comunicação e à imprensa em 2022, dos quais 41,6% tiveram como protagonistas Jair Bolsonaro ou seus três filhos com mandatos eletivos.

CONGRESSO MAIS À DIREITA

Além de conquistar a maior bancada da Câmara, o PL também terá a maior bancada do Senado a partir de 2027, em um Congresso no qual partidos de direita e centro-direita ampliaram sua representação.

O PL elegeu cinco governadores no primeiro turno — no Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Rondônia e Roraima. Outras sete disputas estaduais ainda serão decididas em segundo turno.

No Senado, o partido elegeu 19 dos 54 senadores em disputa e chegará a 2027 com 28 das 81 cadeiras da Casa. O PT terá nove senadores e o MDB, oito.

A distribuição também é geograficamente ampla: o PL elegeu os dois senadores em disputa no Distrito Federal, Mato Grosso do Sul, Rio de Janeiro, Rondônia e Santa Catarina, além de conquistar cadeiras em outros oito estados.

O resultado configura um cenário em que uma eventual Presidência de Flávio Bolsonaro seria acompanhada por uma bancada expressiva de seu partido no Congresso e por cinco governos estaduais já definidos no primeiro turno. A composição final do Legislativo e dos governos estaduais, incluindo as disputas de segundo turno, será um dos elementos do cenário político a partir de 2027. VOTE COM CONSCIÊNCIA PELA DEMOCRACIA! 

Em uma disputa polarizada, quem não vota também escolhe. 

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Paula Filizola

Paula Filizola é jornalista e especialista em comunicação estratégica, relações institucionais e assuntos públicos. Vivendo em Brasília desde 2011, já teve passagens internacionais por Toronto e Abu Dhabi. Acompanha política, sociedade e comportamento a partir de uma perspectiva que combina jornalismo, ciência política e relações internacionais. É formada em Jornalismo pela PUC-Rio e possui pós-graduações em Ciência Política; Relações Internacionais e Governo, além de especialização em Comunicação Digital.

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