O Coracão Entre Dois Mundos
Nem aqui, nem lá: o impasse silencioso de quem imigra
Por Pablo Marcelo | 14 de julho de 2026
Diz a lenda que o grande cantor Tom Jobim, entre suas idas e vindas para Nova Iorque, certo dia soltou essa: “O Brasil é ruim, mas é bom. Os Estados Unidos são bons, mas são ruins”. Desafinado ele não estava. Muita gente sente, de fato, esse descompasso na alma: está aqui, mas queria estar lá. É o dilema shakespeareano surgindo no palco — estar ou não estar, eis a questão.
Vamos e venhamos: não é todo lugar que tem pastel de carne, feijoada, sambinha, praia com camarãozinho e uma roda de família rindo um do outro enquanto comem aquele bolo de fubá com goiabada da tia Olinda, certo?

Entre o ‘home sweet home’ e o ‘lar doce lar’, Tom Jobim traduzia o coração dividido de quem vive entre dois mundos. Foto: Arte editorial inspirada em Tom Jobim .
Só que, do outro lado do muro continental, existe uma tal percepção de segurança, aquela pirâmide social um pouco mais achatada, o imposto dando as caras aqui e ali e um cartão de crédito com superpoderes nos outlets da vida.
E você lá, em cima do muro, coçando a cabeça, olhando para os dois lados.
Entre partidas

Paulinha e Juca — Casal divide a vida entre o inverno canadense e o calor brasileiro.
A Paulinha e o Juca bem que queriam fazer um buraco nesse muro e passar umas coisas de um lado para o outro. Lá se vão sete anos de Canadá na folhinha. Meses atrás, deram aquela fugida do inverno congelante de Halifax, em Nova Scotia, para apreciar o outro lado do termômetro em Campinas, no interior de São Paulo: família, churrasquinho, rever os amigos, mais um churrasquinho, uma voltinha na praia e outro… já falei churrasquinho?
“A gente acaba sentindo falta do clima brasileiro, dessa natureza única do Brasil, da família e dos amigos; mas gostamos muito da cultura canadense, das estações bem definidas daqui e da qualidade de vida, claro. Bom seria se pudéssemos juntar tudo!”, afirmou o casal.
Casal divide a vida entre o inverno canadense e o calor brasileiro

Antonio, Roberta, Matteo e Sofia — Entre a Flórida e o Brasil, a família aprende novas formas de proximidade.
Já a Roberta fez as malas para os Estados Unidos há 14 anos. Espertinha, optou por simular o clima brasileiro lá na Flórida. Mas nem só de calor vive o homem — e a mulher. Matteo e Sofia, seus dois filhos, crescem distantes dos primos brasileiros, dos avós e dos tios.
“Muitos momentos não são compartilhados. A gente improvisa aquela chamada de vídeo sempre que dá. O que não se improvisa é o ziriguidum de temperos dos pratos brasileiros, nem o happy hour do boteco de sexta-feira, por exemplo. Mas são detalhes. A gente vive e aproveita cada dia, sabendo que minha vida está aqui hoje; amanhã, eu não sei”, reflete.
Saudade fixa

Anibal, Rebeca e Lara – Em Portugal, a saudade pode caber numa passagem de avião.
Já no lado europeu, em Portugal, pude conversar com uns amigos que desembarcaram por lá há quatro anos: Aníbal, Rebeca e Lara. Idioma não é lá o maior dos desafios enfrentados por eles, ó pá. Principalmente na hora de pedir uma boa posta transmontana, prato tradicional da região de Trás-os-Montes. O desafio é achar um lugar para guardar a saudade da família e dos amigos. Talvez numa passagem de avião?
“Nunca será 100%. Sabemos que queremos ficar em Portugal até ficarmos velhinhos. Sabemos também que não é todo dia que teremos as pessoas que amamos aqui com a gente. Então, o lance é visitar e ser visitado.” Bora visitar Portugal?
Sabe aquela frase de papel de bala: “Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você”?
Então. O que você faz com aquilo que o lugar faz de você?
Nova identidade

Paula Leite — Psicóloga explica como a imigração transforma identidades e relações afetivas.
Segundo a psicóloga Paula Leite, que também está no Canadá há algumas décadas, lá pras bandas de Prince Edward County, em Ontário, a imigração — que não é turismo! — faz você construir uma nova identidade, diferente daquela que existia no país de origem.
“Você não é mais a filha da Rosângela, a mãe da Lilian, a dona da padaria. Você se reinventa, se redescobre, cria novas Paulas, novos papéis, novas identidades. É um exercício de humildade gigante”, afirma.
Para o especialista em imigração John W. Berry, o grande perigo é quando ocorre o que ele chama de marginalização: quando a pessoa não está nem lá, nem cá. Já não sabe mais se é brasileira, canadense, americana ou turca. Já não sabe mais o que fazer com aquilo que o meio está fazendo com o que restou dela. Tenso.
Coração dividido
John W. Berry — Especialista alerta para o risco emocional de viver sem pertencimento.
Fato é que Tom Jobim também tinha razão quando disse: “Que os olhos já nem podem ver / Coisas que só o coração pode entender”. É nessas horas que o coração bate mais forte ao passar pelo tapetinho da porta de casa dizendo: home sweet home, lar doce lar ou casa dolce casa.
Só quem vive sabe que o coração do imigrante tem uma batida diferente. E haja coração. Ele continua palpitando entre o aqui e o ali, mas cheio de vida e de histórias para contar.

Na música e na vida, Tom Jobim eternizou a sensação de pertencer a vários lugares sem deixar totalmente nenhum deles.
Foto: Arte editorial inspirada em Tom Jobim.
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