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As Eleições nos Estados Unidos e suas Consequências

Por José Vicente de Sá Pimentel | 12 de março de 2024

As eleições nos Estados Unidos serão realizadas no dia 5 de novembro próximo. Com as primárias da última terça-feira (5 de março), foi dada a partida para a campanha, em que duelarão o atual presidente Joe Biden, pelo Partido Democrata, e Donald Trump, pelo Partido Republicano. Os dois têm muito chão pela frente daqui até novembro, mas as pesquisas de opinião apontam que Trump larga na frente.

Mudança na Política e na Ética Americana

Nos EUA, o eleitor republicano típico é de classe média alta, defensor da iniciativa privada, da lei e da ordem. Tem uma hierarquia de valores bem definida, em que sobressaem o patriotismo e o orgulho de ser o baluarte do “American way of life”.  O fato de Trump ter assumido a liderança desse partido demonstra a enorme mudança em curso neste início de século na política e na ética americana.

Um estudo recém publicado pela Heritage Foundation, conhecido think tank conservador sediado em Washington DC, indica aonde pode dar essa mudança. Trata-se de um calhamaço de 887 páginas, intitulado, numa versão informal para a língua portuguesa, “Mandato para a Liderança: A Promessa Conservadora”. Seus autores, Paul Dans e Steven Groves, examinam todos os ministérios e agências do executivo americano e propõem alterações pormenorizadas em cada um deles. A pretexto de enxugar a burocracia e agilizar a administração, fornecem de fato uma receita de bolo para desmantelar o que qualificam de “estado administrativo” e concentrar o poder nas mãos do presidente, que elimina tudo que tem a ver com direitos humanos e meio ambiente, nomeia novos funcionários, contrata policiais, militariza as fronteiras, realoca verbas, redesenha o FBI e a CIA, designa juízes ultraconservadores para o Supremo e condena ao ostracismo as vozes opositoras no Legislativo.

Estudo Revolucionário e Pertubador da Ordem

Trump não endossou ainda o estudo, pelo menos de público. Essas teses populistas, não obstante, soam como um aprofundamento metódico das palavras de ordem do seu primeiro mandato. O curioso é qualificar o estudo de “conservador”. A meu ver, nada é mais revolucionário e perturbador da ordem.

No plano internacional, as prioridades do primeiro mandato de Trump foram perigosas. Voltar àquela trilha poderá jogar abaixo a atual estrutura de poder mundial – que, aliás, foi erguida, após a II Grande Guerra, pelos próprios Estados Unidos. O mote nacionalista que Trump adotou, qual seja “colocar a América em primeiro lugar”, além de estimular outras formas de nacionalismos, enfraquece as organizações multilaterais e as alianças militares que bem ou mal nos vêm mantendo sem guerras mundiais desde 1945. O movimento MAGA (Faça a América Grande de Novo, em português) na verdade corrói a liderança americana. Por mais imperfeita que sejam, as regras da ONU permitem a autodeterminação dos povos, os direitos individuais, a primazia da lei, a segurança econômica. Sem elas, a tendência é passar-se à lei da selva no comércio, nas questões climáticas, na saúde pública. Voltaria um cenário semelhante ao final do século XIX, com os problemas do anarquismo, as esferas de influência, as disputas pela hegemonia, sem o arcabouço de dissuasão nuclear.

Trump não parece ter compromisso com as regras civilizatórias que balizam o comum dos mortais, a julgar pelas 91 acusações nos 4 processos criminais a que responde. O mundo inteiro vai estar atento à campanha, e nós brasileiros precisamos acompanhá-la com atenção redobrada. Os ventos que sopram lá costumam descer para cá.

 

 

 

José Vicente de Sá Pimentel

José Vicente foi Cônsul Geral em Toronto de 2014 a 2016. Está atualmente aposentado do serviço exterior.

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