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Portugal e Canadá celebram 70 anos de intercâmbio focado em negócios, cultura e meio ambiente 

Entrevista com Élise Racicot, Embaixadora do Canadá para Portugal

Reportagem de Jandy Sales com colaboração de Leila Monteiro Lins | Fotos: cortesia da embaixada do Canadá em Portugal e de Teresa Oliveira | 15 de junho de 2023

A forte relação bilateral de Portugal com o Canadá é ainda reforçada pelo fluxo migratório entre os dois países. De coração aberto ao mar, Portugal há muito reconhece a importância da sua ligação marítima com o Canadá. Em uma entrevista especial para a Discover, a embaixadora do Canadá para Portugal, Élise Racicot, falou ainda sobre a importância de abordar questões ambientais globais e como o Canadá e Portugal podem colaborar para produzir soluções sustentáveis, oferecendo um vislumbre da parceria dinâmica e frutífera que continua a prosperar entre essas duas nações. 

DISCOVER MAGAZINE: Qual é a sua visão do país após cinco meses no cargo?

Embaixadora: A minha visão agora, depois de cinco meses aqui, é que Portugal está muito mais perto do Atlântico, e do Canadá, do que eu imaginava. Estou descobrindo cada vez mais vínculos imigratórios de longa data, bem como vínculos emigratórios com muitos canadenses que vêm para cá, recém-formados, pessoas que desenvolveram atividades profissionais no Canadá ou que se aposentaram aqui.

DM: Como estão as relações diplomáticas entre o Canadá e Portugal? 

Embaixadora: Muito positivas. Compartilhamos uma visão de mundo muito semelhante. Portugal é um país atlântico e o Canadá, de certa forma, também. Compartilhamos uma visão comum de democracia, multiculturalismo, direitos humanos, migrações, igualdade entre homens e mulheres e muitas políticas públicas semelhantes. Também somos parceiros e aliados de várias maneiras, inclusive dentro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN). Temos uma relação muito positiva também na Europa. Como Portugal é membro da União Europeia, o Canadá tem uma relação muito positiva com eles. Tudo isso ajuda a manter uma relação positiva e forte entre os dois países.

A embaixadora Élise Racicot conversa com o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, sobre as relações diplomáticas positivas entre Canadá e Portugal. Cortesia: Embaixada do Canadá em Portugal

DM: Qual é o perfil do canadense que busca morar em Portugal? 

Embaixadora: Eu acho que a maioria das pessoas que vem para cá, vem passar um ano (são muitos os digitais nomads canadenses que passaram a morar aqui) ou vem porque já tem vínculo, ou querem ter um negócio aqui. Depende do perfil. Quem tem laços familiares, talvez há uma ou duas gerações, pode vir para cá com mais facilidade devido às políticas de imigração de Portugal. Mas quem quiser vir por uma temporada, principalmente durante o inverno, quando as pessoas querem fugir da neve, pode vir como turista sem muita dificuldade, ficar um pouco, alguns meses. E se são jovens podem, por exemplo, querer estudar ou ter uma experiência profissional, existem algumas pontes.

 

DM: O que é o International Experience Canada Program (IEC)?

Embaixadora: Trata-se de um acordo bilateral de mobilidade onde ambos os governos assinaram uma convenção para facilitar a ida e vinda de jovens entre os dois países, para terem experiências, estudem, conheçam melhor os países uns dos outros e tenham uma experiência mais pessoal. É um protocolo que entrou em vigor em novembro de 2018 para jovens portugueses e canadenses entre os 18 e os 35 anos, com uma quota anual de duas mil vagas, e propõe três categorias de experiências. São 200 vagas para jovens profissionais. 1750 vagas para o programa de férias laborais – que pode ser para quem vem a Portugal e pode trabalhar no sector do turismo ou num restaurante, para ganhar algum dinheiro enquanto cá estão e conhecer o país, e 50 vagas para estágios em organizações internacionais. Os interessados devem buscar informações e se inscrever no programa no site canadense de imigração, refugiados e cidadania.

 

 

DM: O que a embaixadora pode destacar sobre as questões ambientais globais envolvendo os dois países? 

Embaixadora: Recebemos recentemente em Lisboa uma delegação do governo canadense ligado e os oceanos, questões que preocupam ambos os países. Portugal sempre teve vista para o mar. Para além de sermos parceiros em matéria de alterações climáticas, é precisamente nesta área dos oceanos que somos vozes fortes ao nível internacional e trabalhamos em conjunto para desenvolver soluções. Compartilhamos também a importância da transição energética, com investimentos dos dois lados, e temos uma matriz energética um tanto parecida, com parte hidrelétrica, parte eólica e parte solar. Temos não só muito interesse na cooperação em projetos de energia renovável, mas também em aproximar ecossistemas de inovação de economia azul.

Como parte das celebrações dos 70 anos das relações diplomáticas entre Portugal e o Canadá, a embaixadora Élise Racicot participou no fim do ano passado do fórum do Acordo Econômico e Comercial Global (CETA). No evento, foi discutido o fortalecimento ainda maior dos negócios entre os dois países. 

DM: Como está a relação dos dois países na área de negócios? 

Embaixadora: O comércio entre Portugal e Canadá continua sendo bastante importante e registramos um bom crescimento nos últimos anos. A ratificação de Portugal do Acordo Econômico e Comercial Global (CETA) e já permitiu bastantes resultados. Agora já são mais de um bilhão de dólares de mercadorias e serviços a cada ano. Outros setores, como o de energia renováveis, entram na dinâmica das boas relações de negócios entre Portugal e Canadá ao lado das áreas de tecnologia da informação e inteligência artificial. Os dois países estão também empenhados na descarbonização de suas economias, procurando soluções em comum para esse fim. O comércio internacional de mercadorias e serviços entre os dois países cresceu 36% desde 2016, e esperamos ver ainda mais crescimento no futuro.

DM: Como o país está se recuperando daquele momento de Covid-19? 

Embaixadora: Eu diria que Portugal está numa situação melhor em comparação com outros países europeus em muitos aspectos. Apesar dos efeitos econômicos da crise energética devido à guerra na Ucrânia, a inflação no país foi limitada já que a península Ibérica é isolada da rede energética europeia. Portugal continua também recebendo bastante investimento na área do turismo e construção. Por exemplo, o turismo é um setor bastante importante do PIB que acabou tendo um bom crescimento este ano. Espera-se que a transição energética e a criação de outras fontes em termos de países fornecedores ou tipos de energia utilizada possam ajudar eventualmente essa situação. De uma maneira geral, o comércio entre Canadá e Portugal cresceu e os investimentos também.

DM: Como a embaixadora vê a relação entre os dois países daqui há cinco anos? Qual o maior desafio que ambos terão que superar? 

Embaixadora: Alguns dos desafios que temos em comum incluem a mudança climática, a questão energética, e a manutenção da ordem internacional baseada em regras e democracia. Para alavancar nossos laços interpessoais seria útil saber mais sobre quem são os portugueses no Canadá e a influência que eles têm, e quem são os canadenses que vivem em Portugal. Por exemplo, essa informação poderia ajudar um canadense que está aqui em Portugal a fazer negócios, conexões ou ser um pesquisador acadêmico e fazer investigação colaborativa. Acredito que a relação entre os dois países continuará sendo positiva e produtiva e que trabalhando juntos superamos esses desafios comuns.

As comemorações da migração açoriana ao Canadá  

A imigração açoriana é uma parte importante da história do Canadá, especialmente para a província de Newfoundland e Labrador e outras partes do Atlântico canadense. De acordo com a embaixadora Élise Racicot, para celebrar os 70 anos de imigração dos açorianos ao Canadá, ocorreu em maio, a visita do Secretário de Estado para as Comunidades Portuguesas no exterior, Paulo Cafôfo, ao país.

Segundo a embaixadora, também está sendo organizado o Canada Day. O evento terá na programação uma série de atividades a ser realizadas em Ponta Delgada. As festividades ocorrerão no final de junho para celebrar o mês da Herança Portuguesa no Canadá e comemorar o dia 1 de julho, Dia do Canadá.

Segunda matéria vinculada, desta vez será abordado um perfil da embaixadora Elise Racicot.

Élise Racicot: carreira diplomática em meio ao mundo multicultural

Quebrando barreiras através da linguagem: a fluência da embaixadora Élise Racicot em português permite uma comunicação eficaz e uma compreensão mais profunda da cultura e tradições portuguesas. 

A carreira diplomática da embaixadora Élise Racicot já se soma mais de duas décadas. Ela iniciou as atividades na área da diplomacia em 2002, no Departamento de Relações Exteriores e Comércio Internacional do Canadá. Entre os vários serviços prestados para o departamento, Racicot chegou a ser a primeira comissária de comércio canadense no Irã e assumiu o comando da missão diplomática no Brasil, ao ser nomeada chefe do escritório da província de Quebec, em São Paulo.

Nascida na província de Québec, Racicot cresceu em um país com uma das populações mais diversificadas do mundo. No Canadá, o número de imigrantes chega a ser 23% do total da população do país, de acordo com dados de 2021 do Statistics Canada.

Multiculturalismo pessoal e profissional

O multiculturalismo sempre fez parte da vida embaixadora Élise Racicot. O cargo que ela hoje exerce como embaixadora do Canadá para Portugal tem sido a oportunidade para uma assimilação cultural ainda maior da cultura e tradições portuguesas. E desde que assumiu a embaixada canadense, em Portugal, ela tem observado o interesse dos canadenses em fazer parcerias e negócios no país luso, sendo essa uma oportunidade para ela promover o comércio e a cooperação entre Canadá e Portugal, além de fortalecer os laços culturais entre os dois países.

Troca cultural e parceria nos negócios

O maior intercâmbio cultural que a embaixadora Racicot afirma ter conquistado no cargo tem sido a possibilidade de trocar ideias sobre os desafios globais envolvendo Canadá e Portugal com pessoas dos mais diferentes segmentos do país.

Sua fluência no idioma português permite que ela se comunique com os portugueses de maneira mais efetiva e compreenda melhor as nuances culturais do país. Essa habilidade com o idioma do escritor Fernando Pessoa deve-se também graças à experiência que ela teve no Brasil ao trabalhar à serviço do governo canadense durante dez anos.

Laços familiares e culturais

Outro fator que ajuda a aproximar a experiência diplomática da embaixadora Élise Racicot com as culturas de sotaques brasileiro e português são os laços familiares. Ela é casada há treze anos com o brasileiro Gustavo com quem teve o filho Gabriel, de dois anos. “Meu filho frequenta uma creche com crianças de várias nacionalidades”, disse ela expressando o contentamento em fazer parte da vida multicultural portuguesa.

“Eu falo português porque estudei a língua e pratico todos os dias. Quando apresentei as minhas credenciais ao Presidente da República (de Portugal), eu apresentei em português”, afirmou a embaixadora Élise Racicot, que também encontra-se engajada em um programa de mentoria voltado para a equidade de mulheres diplomatas.

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JandyS

Jandy Sales tem experiência em rádio, televisão, jornal e revista. Ele já recebeu três prêmios como documentarista.

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